Seguidores

segunda-feira, 5 de março de 2012

OS NETOS DE VOVÓ BENEDITA



Sentado no chão, eu ficava olhando aquele armário com portas enormes, feito de pura madeira trabalhada, tinha uma cor estranha, quase preta, vovó dizia que tinha pertencido a um coronel dono de muitas fazendas no interior de São Paulo. Duas janelas de vidro, já com sinais de velhice, possibilitava ver louças, utensílios, raízes secas e outras coisas que vovó utilizava para fazer suas mandingas e curar aquele monte de gente que a procurava todos os dias. Sabe… nos meus nove anos de vida, não me lembro de ver outra pessoa abrir aquele armário, que não fosse a vovó Benedita. Minha prima Luiza já tinha dezesseis anos e ajudava vovó todo dia a receber as pessoas, eu a achava meio chata porque ficava cantando uma música estranha enquanto fumaçava a casa todinha, até o casal de gatos rajados caiam no sono depois de todo aquele fumacê, também pudera né?...
Lá pelas nove da manhã, Luiza abria a tramela da janela rangente de duas folhas que iam até o teto, e eu podia ver aquela gentarada esperando do lado de fora. Sentada num toco de amoreira, vovó recebia um por um daquela gente toda, conversava com todos, enquanto Luiza que não desgrudava do ladinho dela, ia misturando coisas, socando no pilão, e depois punha toda aquela mistura num saquinho de pão, e dava para a pessoa levar. Naquela época eu não entendia o que vovó fazia, e muitas das vezes me perdia em pensamentos brincando com os gatos preguiçosos, que corriam assustados quando vovó batia a bengala no chão, e fazia sinal para que eu ficasse quieto. Vovó como ela mesma dizia, apesar de pobre, era uma mulher letrada, tinha estudado em escola de freiras, super prendada, tocava bandolim aos finais de semana. Bem….. o tempo foi passando, vovó mantinha sua rotina, e eu fui crescendo e compreendendo melhor a missão daquela vovozinha de cabelos brancos e sorriso ingênuo.
Certo dia para nossa tristeza, vovó nos deixou e voltou para sua casa na terra do nosso pai Olorum. Era uma Quarta-feira do mês de Agosto, havia passado duas semanas do desencarne da vovó, e Luiza como de costume, abriu a janela rangente de duas folhas, e lá estava o povo esperando para ser atendido. Durante uns dez minutos, Luiza permaneceu em pé observando a fila de pessoas do outro lado da cerca de bambu, e pela primeira vez a vi sorrir, momento em que colocou um lenço na cabeça, sentou-se no toco de madeira e falou:
- Fique do meu lado, meu primo! Estamos prontos!
- Tome, fique com a chave do armário grande… Agora ela é sua.
- Vamos continuar o trabalho da vovó.
Meu coração bateu forte, e a falta da velhinha de cabelos brancos, me fez sentir uma tristeza repentina. Tomei então meu lugar ao lado de Luiza, e não consegui conter as lágrimas ao ver que sentado no chão de tijolo vermelho, meu filho de cinco anos brincava descontraído com dois gatinhos rajados.
Adorei as Almas meu querido Pai João!

Por: Wilson de Omulu

Nenhum comentário:

Postar um comentário